#5 Yara Pão
'Sou muito alagoana. Gosto de trazer as referências locais'
A muralista alagoana Yara Pão tem uma energia contagiante. Por trás de seu sorriso fácil, existe um talento em constante ascensão. Os grafites da artista estão espalhados por Maceió, como uma carta de amor à cidade, mas também nas ruas de Pilar, Porto Calvo, Fortaleza, Aracaju e Rio de Janeiro. Ela leva referências locais, como o Quilombo dos Palmares e o Guerreiro, além de temas relacionados à condição humana e à natureza.

Desde muito cedo, Yara desenhava em seus cadernos, inclusive chegou a produzir estampas para seu colégio. Já adulta, ela descobriu o grafite com o grupo MCZ Crew e, em 2018, abriu sua primeira exposição individual, ‘Travessias’, na Pinacoteca da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), onde estudou Arquitetura e Urbanismo.
Fora os murais, Yara pinta telas com tinta acrílica e aquarelas. O próximo passo, ela revela, é se aprimorar na criação de azulejos.
Qual foi o seu primeiro contato com as artes plásticas? Como você começou a pintar?
Eu era bem criança. Tinha um primo, que era meu melhor amigo, e eu era muito fã dele. Ele andava de skate, era muito desenrolado…e desenhava também. Eu lembro que ele tinha tipo uma caixinha do tempo, de cartas e coisas importantes, [daquelas] que criança faz. Ele era uns cinco anos mais velho e lembro que ele pegou uma carta com o maior cuidado, com um desenho e disse: “Foi fulana que fez e ela desenha super bem.” Ele pegou aquilo ali como se fosse algo muito precioso. A expressão dele com aquilo ali, acho que foi a primeira vez que o desenho me chamou atenção. Não foi nem o desenho em si, foi mais o sentimento de outra pessoa [em relação ao desenho].
Então acho que isso nasceu da infância, da admiração pelas pessoas e pela capacidade delas de conseguirem executar [um desenho]. Eu lembro, muito criança, de tentar fazer uma estrelinha no chão e parecia impossível.
E da pintura, como passou aos murais?
Eu fui desenvolvendo o desenho desde bem novinha, já fazia desenhos na banca da escola, nas agendas. Aí o pessoal começou a me chamar, tipo no nono ano, pra fazer a camisa da escola. Acho que até antes já tinham me chamado para fazer o design da camisa, os desenhos, e no terceiro ano também. E eu ganhei um prêmio na escola de melhor artista, sabe? Então a minha infância e a minha adolescência inteiras, isso veio me seguindo.
Quando eu escolhi fazer design na faculdade, dentro da Arquitetura e Urbanismo, era o que tinha mais próximo, porque aqui [em Maceió] não tinha Artes Plásticas e eu não tinha condições de estudar em outro local. Então optei pelo design, que era o que era mais próximo [do desenho]. Acho que foi quase simultaneamente, no mesmo período que eu entrei na faculdade, eu fui no REX Bar, quando ele era em uma praça aberta, e aí tem uma ponto de ônibus que tem uma edificação arquitetônica belíssima. Eu tava lá com um pessoal e, do nada, chegou uma galera com umas escadas e começaram intervir lá. Foi como eu conheci o grafite; fiquei maravilhada. Não tenho certeza quem foi que me apresentou; era o pessoal da MCZ Crew.
O grafite, ao contrário da pichação, vai muito na ideia do desenho, das formas. Outra característica do movimento é que as pessoas vão para a rua para pintar; algumas se profissionalizam, mas quando e o grafite mesmo não é uma questão comercial. Você chega lá e pinta, deixa seu trampo e rola aquela troca de informação. Eu aprendi muito na rua, dentro do movimento do grafite. Aí comecei a conhecer outras pessoas e sair com muita gente para pintar e a viajar para participar de festivais, comecei a ser convidada. Enfim, foi fluindo.
Qual o seu processo criativo? Você rascunha tudo antes?
Depende. Eu sou meio inquieta sobre essa questão, tanto com relação ao processo criativo quanto à execução. Eu respeito muito isso em mim, não tento forçar, embora algumas pessoas olhem e reconheçam que é o meu traço. De fato, tem algumas coisas que tem um aspecto comum, mas eu exploro técnicas e estilos. Dentro de cada vertente, acho que tem uma singularidade.
Quando eu vou fazer algo mais realista, faço uso da fotografia. Gosto de tirar fotos de pessoas, ou então fazer um ensaio. Primeiro, visualizo na minha mente o que eu quero fazer, o que aqueles elementos vão representar, na mensagem que quero passar, e aí construo a partir disso.
Você sente que já desenvolveu sua própria identidade artística? Como chegou a sua estética atual?
Gosto de explorar bastante. É difícil com aquarela eu fazer algo semelhante ao que faço com spray. É possível, se eu copiar o que faço com o spray, ou deixar a tinta da aquarela meio diluída para eu ter uma certa semelhança, mas gosto muito do efeito translúcido que [a aquarela] dá, gosto muito do realismo luz e sombra, mas ao mesmo tempo gosto do efeito chapado. Então acho que dentro de cada estilo, tenho uma identidade própria. Por exemplo, se você ver os trabalhos coloridos que eu faço em murais, muitos deles não tem contorno. As cores também, uso bastante tons de verde e azul, laranja. Acho que as pessoas associam o colorido ao meu trabalho, não consigo ficar só em uma paleta. Saio botando um monte de coisa e aí dá certo.
Quais os momentos mais marcantes da sua carreira até então?
Tiveram alguns momentos muito importantes até então. A nível local, foi quando fiz a minha primeira exposição na Pinacoteca. Outro momento foi quando eu participei do Rua Walls, que e um dos maiores eventos de arte urbana do Brasil. Foi lá no Rio de Janeiro, fiquei bem livre para fazer o que eu queria e levei os guerreiros alagoanos numa edificação, um prédio público de uns 20 metros de altura. E teve também o Concreto, no final do ano passado [2024], em que fui convidada e contratada para participar.
Quais outros artistas que mais te inspiram? Onde você busca inspiração?
Sou muito alagoana. Gosto de trazer as referências locais. Gosto de pessoas, de uma forma geral. Trago a temática da diversidade, que está imbuída nas cores, nas formas. A natureza também. Eu conto várias histórias por meio de abstrações. Cada local que eu pinto, eu tento representar, [pintar] algo que tenha relação, não apenas o que eu estou passando ou sentindo. Eu me esforço para poder ter uma linguagem mais próxima da comunidade, do ambiente, que eu vou estar me inserindo.
Qual a diferença no processo criativo entre os seus murais mais autorais e os que uma marca te contrata para fazer?
O tempo! Por que para fazer uma coisa que eu queira fazer, procrastino muito mais do que uma encomenda. E depende da encomenda; são coisas tão variadas, têm temáticas que eu facilmente faria mesmo que não fosse uma encomenda. Mas a questão do profissional tem esses dois lados, ao mesmo tempo que requer muito mais responsabilidade por causa de prazo, contrato, equipe, segurança, questões mais burocráticas, inclusive contabilidade, produção, audiovisual, fotografia, tudo tem que estar articulado, [inclusive, a minha] vestimenta, [o meu] comportamento. Já quando eu faço um trabalho na rua, posso ir mais à vontade, posso ir pintar de shorts e chinelo se eu quiser.
Como foi criar o projeto para o cavalo marinho do Marco dos Corais e o 'Eu amo Maceió' da orla?
Foi uma grande honra, para ser sincera. É uma validação muito importante do [meu] trabalho. São espaços que recebem muitas visitações e que requerem uma questão mais técnica, mas aprimorada porque ali [o cavalo marinho] fica dentro d’agua, então fiz toda uma preparação, usei uma tinta diferente, fiz aplicação de componentes que segurassem. Está lá o cavalo marinho, tomando sol e chuva, e a tinta tá segurando. Acho que já traz uns três anos que pintei. E lá no totem, as pessoas se encostam, então foi essa questão técnica e uma grande responsabilidade.
Tenho uma relação afetiva com o Alagoinhas porque já tinha pintado lá antes quando era abandonado e tenho algumas memórias de vivencia la, que inclusive envolve aquele meu primo que te falei. Também não só a questão das memórias particulares, mas também em respeito ao sentimento de vários outros maceioenses. As cores lá também foram mais estratégicas, não foi à toa que eu escolhi os tons de azul e verde.
Como as suas raízes alagoanas influenciam seu trabalho?
Sou tão orgulhosa. Tenho o maior orgulho; eu vou pros cantos e acho a coisa mais linda dizer que sou daqui de Maceió. Sou fã da minha cidade, eu amo aqui. E eu não amo só a orla, sabe? Eu amo a lagoa, eu amo o Vergel, de verdade, eu adoro estar lá. Eu sou super acolhida pelos locais que eu passei, em que fiz intervenção, a simplicidade das pessoas. Entrar nas comunidades para pintar, o pessoal é tão acolhedor, eu me sinto em casa. Todo lugar que eu vou aqui, me sinto em casa. E isso é diferente quando a gente vai para outras grandes capitais, principalmente fora do Nordeste. Eu acho uma coisa linda a nossa cultura, as nossas tradições, o filé alagoano, a capoeira. Eu sinto que a gente não tem o valor a nível nacional que a gente poderia e deveria ter; a gente é muito mais do que praia, temos artistas e músicos magistrais.
Aqui a gente tem, por exemplo, a Serra da Barriga [em União dos Palmares], o quilombo dos Palmares e o sururu. Bebo muito da fonte do filé, o Bumba-meu-boi, a alegria das nossas festividades.
Qual o seu próximo projeto?
Fiz uma residência artística em São Paulo para me aprimorar mais nas artes do fogo, que envolvem cerâmica, azulejo, esmaltação, vitral, enfim…aí eu estou nessa dos azulejos, que é uma vontade antiga.
Comprei um forno e estou dando início aos meus estudos de forma mais prática agora. É um processo bem diferente, não só na técnica, mas também na questão mais filosófica da coisa. Eu me afirmei artisticamente dentro do movimento do grafite, que é totalmente uma arte contemporânea e como tal é muito fugaz, muito passageira. O spray, a performance do spray, é de velocidade, você pega ali e risca rapidão, não precisa nem molhar o pincel, faz ali uma coisa e vai embora. E, na rua, é algo perecível - se ele estiver muito exposto a sol, chuva, ele dura um tempo, mas é definitivamente incomparável a um azulejo, feito dentro de uma técnica de queima, os esmaltes cerâmicos passam por um processo de queima dentro de um forno até 900 graus. Então ela se funde à peça; a gente tem aí painéis milenares. Espero conseguir fazer mais projetos dessa forma; e que é um desafio para mim e um próximo passo.
Eu sinto que me projeta para um futuro muito mais distante porque, se essas obras não forem quebradas, elas vão perdurar muito tempo. Pegou no azulejo, fundiu e já era. E é um processo bem diferente; tenho que preparar a superfície, é um outro tipo de tinta, um esmalte cerâmico. Tem a questão toxicológica, depois instalar - é algo muito mais trabalhoso, mais custoso muitas vezes, mas também [é] algo que fica para sempre.














