#18 Arrudas
'Meu projeto atualmente é dar uns passos para trás, voltar a pintura pela pintura'
O artista visual cearense Arrudas trabalha com os não-ditos, os incômodos da vida cotidiana. Suas obras hiper-realistas partem de memórias ou sentimentos de ‘in-familiaridade’, de desconforto. O desenho, inclusive, veio na infância como forma de se comunicar e de lidar com a solidão. As tramas que sua imaginação tece transbordam em pinturas potentes, cheias de detalhes, onde a tinta a óleo conversa com caramujos em cerâmica e intervenções em bordado.
Arrudas nasceu e cresceu em Fortaleza, onde se graduou em Publicidade e Propaganda. Como pessoa LGBTQI+ e com diagnóstico no espectro autista, ele desde cedo encontrou refúgio nas artes visuais. O resgate de sua autoestima veio muito através dos pincéis; sua introspecção e dificuldade em se expressar, particularmente enquanto criança, serviram de fomento para a elaboração de telas impactantes, que por vezes bebem na fonte de relações familiares disfuncionais e de sessões de terapia.
Como artista visual, Arrudas é metódico. “Não sou um dito ‘artista da espontaneidade’, que chega em frente a uma tela e se depara com ‘um nada’”. Ele ‘monta cenas’ a partir de símbolos que anota em seu caderno e, com o tempo, vai elegendo símbolos que se tensionem. A casa de sua avó, costureira e ‘bem perua’, sempre o atrai de volta. “Parece que algo mais forte me puxa para essa casa”, conta.
Em 2023, Arrudas foi vencedor da 22ª Unifor Plástica, bienal promovida pela Universidade de Fortaleza. A premiação o levou à Itália, no ano seguinte, para visitar a 60ª Bienal de Veneza. Ainda em 2024, aconteceu sua primeira exposição individual, ‘Anamnese’, na Galeria Leonardo Leal. Mais recentemente, em novembro de 2025, Arrudas foi tema de um episódio do programa ‘Um.artista’ do canal Arte1, que teve participação da curadora Denise Mattar e do artista Renato Rios.
Qual foi o seu primeiro contato com as artes plásticas? Como você começou a desenhar / pintar?
Acho antes interessante dar uma contextualizada. Eu sou uma pessoa com autismo. Falo isso porque venho de uma família que se comunica muito pouco, com muitos não-ditos e problemas com comunicação. Meu primeiro contato com a arte foi como um facilitador dessa comunicação, como uma forma de, na infância, dar corpo e falar o que não era dito, expressar, de alguma forma, o que estava me incomodando.
A arte, claro, veio como prática didática na escola, como forma de passar o tempo, lidar com uma certa solidão porque, enfim, sou uma pessoa LGBT, e passei por uma certa exclusão social. Acaba que a arte veio tanto como uma forma de lidar tanto com a solidão quanto como [um resgate] da [minha] autoestima.
Com o desenho, muito especificamente, não consigo dizer o momento exato. Não consigo vislumbrar o momento na minha vida em que eu não estivesse desenhando. E, principalmente, desenhando incômodos. A pintura já veio um pouco mais tarde, quando eu tinha uns 16-17 anos.
Qual o seu processo criativo? Como você começa uma ilustração?
O meu processo criativo vem de forma bem metódica. Sou uma pessoa muito apegada a regras, métodos. Eu definitivamente não sou um dito ‘artista da espontaneidade’, que chega em frente a uma tela e se depara com ‘um nada’. Geralmente, tenho um caderno - sou muito ligado à prática dos cadernos de artista e vou anotando símbolos, vou fazendo meio que um dicionário de símbolos que acho interessantes e que vão atravessando a minha vida, que acho que tem um potencial de falar, comunicar mais do que eles em si. Com o tempo, vou elegendo um símbolo, uma cena com esses símbolos, uma imagem que de alguma forma pode gerar algum incômodo, in-familiaridade, ou então junto dois ou três símbolos, em que um tensione o outro. Fico depois pensando em cenas, muitas vezes cenas fechadas em um ambiente doméstico, gosto muito de ‘montar cenas’.
Sou também produtor cultural, então gosto de idealizar um projeto de fato montando aquele cenário. A partir do momento que tenho uma ideia, vou e procuro os materiais, seja com amigos ou comprando de fato. Eu crio aquela cena, depois fotografo, da foto eu começo a estudar, gosto muito de estudar a relação luz e sombra, ver o tensionamento da luz e da sombra. Depois, pego o iPad, começo a desenhar, a separar paletas de cores, preparo a tela e começo a pintar, mas sempre tendo aquela imagem de referência, chegando o mais perto possível dessa imagem artificial que eu criei.
Quando disse que não sou um ‘artista da espontaneidade’ é por que admiro profundamente essa categoria de artistas que se deparam com a tela em branco, sem saber o que vem, que não veem um problema no não-programado. Sou um ‘artista de projeto’, talvez.
Como chegou a sua estética atual?
Olha, é uma pergunta muito difícil de responder porque, inclusive, estou em um momento de transição. Não diria de transição estética em si, mas de redução do detalhe. Estou em um momento de simplificação, não de esvaziamento, mas talvez de procurar uma paleta mais reduzida, o que acaba afetando de alguma forma a estética.
Já o universo pictórico que eu crio, acredito que seja por que venho de um ambiente familiar de uma casa de vó, em que fui uma pessoa muito introvertida. Nesse ambiente doméstico que eu vivi, minha avó era uma perua, bem estampas, cristaleira, enfim, de muitos signos. Fui pegando esses ambientes de arranjos de flores muito pomposos, mesas de mármore, enfim, fui criando cenas na minha cabeça. Acho que vejo sempre esse universo de cenas da casa da minha avó. Não moro mais lá, visito, mas ainda acabo retornando lá.
Quero, inclusive, sair e pintar mais, talvez, paisagens, sair desse tema tão doméstico, asséptico, mas parece que algo mais forte me puxa para essa casa.
Quais são as suas temáticas mais frequentes?
Acho que, por muito tempo, no início da minha pintura, trabalhei com a temática do corpo. Depois de um tempo, que esse corpo estava em ambientes domésticos, fui muito para naturezas mortas; acho que queria representar o corpo na ausência dele, mas que ainda mostrasse a presença de um corpo a partir de objetos carregados. Acho que é um tema que perdura, mas acho que, principalmente, a tensão, a tensão psicológica, uma coisa teatral, muito pelos focos de luz que procuro sempre fazer. E os contrastes muito grandes. Por muito tempo, eu retratei cenas familiares, fotografias de família, muito por pensar em uma certa dramaturgia familiar e como ela traz os não-ditos.
Acredito que agora esteja talvez lidando um pouco mais com a existência, a carga existencial que objetos tragam, e pensando um pouco nas poéticas do cotidiano no geral.
Como ser cearense se reflete no seu trabalho?
Para ser sincero, não acho que ser cearense reflita muito no meu trabalho. Sou um pintor nascido no Ceará. Não sinto que há diretamente algo do fato de eu ser cearense que se reflete; acho que se reflete mais o fato eu ser uma pessoa LGBT, ser uma pessoa com autismo.
Onde mais você busca inspiração? Quais outros artistas ou movimentos artísticos mais te inspiram?
Tenho uns salvos do Instagram e Pinterest bem recheados! Sou uma pessoa que está sempre pesquisando, vendo artistas e fazendo pesquisas de mercado. Procurando artistas que se enquadrem em uma categoria de poéticas do cotidiano. Acho, contudo, que a minha maior inspiração ainda seja a casa da minha mãe e da minha avó. Conversar com elas, por mais que pouco, e perceber o que escapa. Fazer terapia também me inspira, sempre anoto sonhos e converso sobre.
Como as redes sociais impactam o seu trabalho e a promoção dele?
As redes sociais impactam muito o meu trabalho na pesquisa porque sempre fui um grande consumidor de ‘imagem’. Tenho uma biblioteca pessoal com uma quantidade legal de catálogos que eu revisito. Acho que essa fome por imagem com o Instagram, o Pinterest e o TikTok só ficou ainda mais forte, de forma que eu mesmo preciso me controlar. Não uso tanto como ferramenta de trabalho para me promover; para mim, é uma coisa ótima ser representado por uma galeria, coloco toda a parte da promoção e venda na galeria. Posto muito esporadicamente porque me cansa, me exaure, então prefiro me resguardar mais e deixar o espaço das redes sociais só para pesquisa mesmo.
Quais os momentos mais marcantes da sua carreira até então?
Foram dois. Ganhei um prêmio da Unifor Plástica, que é uma bienal que acontece em Fortaleza, promovida pela Universidade de Fortaleza. E o prêmio foi uma viagem para Veneza, para a Bienal de Veneza, foi incrível ter contato com toda diversidade artística e cultural. Outro momento foi a minha primeira exposição individual, que foi a exposição que teve o nome de ‘Anamnese’, na Galeria Leonardo Leal, onde tive contato pela primeira vez com o pensamento curatorial.
Quais os seus próximos projetos?
É engraçado que ano passado me fizeram essa mesma pergunta e eu estava muito animado, no começo do estudo da escultura, então meus projetos eram estudar escultura, mesclar pintura e escultura, misturar várias técnicas. Toda essa voracidade acabou desembocando em mim em uma sensação de melancolia. Meu projeto atualmente é dar uns passos para trás, voltar a pintura pela pintura, olhar para um objeto e entender a poética dele, e conseguir retratar tal objeto de maneira mais simples. Talvez um projeto meu [agora] seja procurar a simplicidade na pintura. Saber que o importante é comunicar uma história a partir de uma cena.












