#10 Isadora Rolim
'Sempre começo com uma pergunta. As ideias surgem a partir da indagação e depois vou pensando em como ela se transporta para o mundo visível'
As pinturas de Isadora Rolim desbravam o eu por meio de cores vibrantes e formas fluídas. Suas figuras, de pernas e braços longos, transitam entre estados de renascimento, descoberta, multiplicação e fagocitose, sempre exalando movimento. Tais figuras emanam uma qualidade onírica, como se fossem criaturas elásticas saídas de um sonho em degradê.
Isadora nasceu em Recife, mas cresceu em João Pessoa, na Paraíba. Cursou Arquitetura e Urbanismo e, apesar de desenhar desde a infância, decidiu se dedicar às artes plásticas só depois de formada. Começou a pintar telas com tinta acrílica e a óleo e a esculpir peças em cerâmica, além de desenvolver estudos em nanquim sobre papel canson. Trouxe consigo referências visuais que vão da arte bizantina e egípcia à Georgia O’Keeffe e Chico da Silva, Hilma af Klint a Flávio Tavares.
A questão da memória e da passagem do tempo são temáticas que Isadora explora de maneira pungente, com tanta poesia que a sensação que fica é um misto de aconchego e pesar. O monólogo interno que ela investiga se debruça sobre a “riqueza e a vastidão da vida interior”, ao mesmo tempo que convida o espectador à reflexão.
Em setembro de 2025, Isadora inaugura sua primeira mostra individual, ‘O monólogo interno’ no Centro Cultural São Francisco, em João Pessoa. A exposição vem depois de duas coletivas na galeria Terra Brasilis e na loja de Rebeca Nepomuceno, e uma parceria com a marca de moda praia Giu Magliano.
Quais caminhos te trouxeram à Paraíba? Você se mudou para fazer a faculdade de Arquitetura e Urbanismo?
Eu nasci em Recife, no entanto, moro na Paraíba desde criança, estado natal da minha família. Parte da infância passei em Campina Grande, depois, aos 11 anos, vim para João Pessoa.
Foi uma decisão que partiu de meus pais, mas que sou grata até hoje, pois João Pessoa é uma cidade maravilhosa!
Como você começou a pintar?
Minha relação com a arte se iniciou na infância, gostava de desenhar e escrever poesia. Me fascinava a possibilidade de transmutar o que existia apenas em minha imaginação em algo visível, palpável. Enquanto uma criança tímida, era uma boa forma de me expressar sem precisar colocar exatamente sobre mim os holofotes, mas em um produto que era extensão da minha mente.
A pintura entrou na minha vida um pouco mais tarde, apenas após me formar no curso de Arquitetura e Urbanismo. Estávamos em plena pandemia e a questão da morte nos rondava constantemente, o que me fez questionar minhas escolhas para o futuro. Queria entender o que de fato faria sentido construir ao longo de toda uma vida.
Ficou claro que o caminho da arte era aquele que eu deveria percorrer, desde sempre ressoava esse chamado em mim. Assim, tomei coragem e engrenei na pintura e também na cerâmica.
E a cerâmica? Como você começou a esculpir?
Acredito que o confinamento fez com que o universo da casa ficasse cada vez mais incontornável. Eu olhava para os objetos que me rodeavam e pensava como eu os teria feito se fossem uma criação minha.
A cerâmica me pareceu um meio mais fácil de brincar com esse tipo de exploração, sua maleabilidade me cativou.
Qual o seu processo criativo? Como você começa uma obra?
Sempre começo com uma pergunta. As ideias surgem a partir da indagação e depois vou pensando em como ela se transporta para o mundo visível.
Pego uma folha de papel e vou fazendo rascunhos rápidos, de forma bem esquemática mesmo, me ajuda pensar em diagramas.
Quando identifico o caminho faço um estudo de composição com nanquim. Por isso toda tela minha nasce de uma pintura em papel, que inclusive acho tão interessante que disponibilizo para venda. Sinto que a força do preto e branco leva a atenção para o movimento, o gesto da pincelada, se diferenciando um pouco das minhas telas que são coloridas.
Em seguida, fotografo e passo ao estudo de cores, que faço pelo Photoshop. Nessa fase busco trabalhar a harmonia das cores, seus contrates…
Quando satisfeita parto para a execução! É um caminho longo, demorado até, mas me sinto mais preparada quando tenho um norte para me guiar. Creio que o planejamento tão ordenado da pintura é um resquício deixado pela Arquitetura!
Sua obra tem um quê de surrealismo. Como chegou a sua estética atual?
Quando comecei a pintar, estava interessada na arte egípcia e bizantina, referências que ressoam até hoje em meu trabalho. Figuras simplificadas e com tamanhos diferentes, onde a cor não tem tanto o papel de simular a realidade, mas de criar um encantamento, tudo isso permanece.
Acredito que é importante escutar o que o trabalho tem a nos dizer, entender o que ele pede, buscar compreender quais as questões que surgem e o porquê de sua repetição.
Em minhas obras iniciais eu usava cores chapadas, não fazia muita questão de dar ideia de volume e profundidade. Com o tempo, fui entendendo que havia uma demanda por mais complexidade, precisavam ser criados degradês e movimentos mais elaborados.
Posso dizer que a estética que construí veio muito naturalmente, mas evoluiu a partir da conversa com o próprio trabalho, é importante pensar sobre o que estamos fazendo.
Quais são as suas temáticas mais frequentes?
Meus trabalhos têm explorado o universo da introspecção, mais precisamente a questão do monólogo interno. Desde 2022, o interesse por essas conversas íntimas começou a tomar corpo e a investigação não parou mais.
As obras exploram, por exemplo, a ideia do monólogo interno enquanto uma coreografia íntima, um destino incerto e uma arqueologia interior. Dessa forma, apontam para a fluidez dos pensamentos e para a constante mutação do “eu”, quando existe a curiosidade de desbravar a si mesmo.
Inserida no contexto da sociedade contemporânea, que tanto valoriza a exibição de conquistas externas e o compartilhamento de uma vida ficcional nas redes sociais, eu pretendo criar aí um contraponto. Isto é, através da arte estender ao público um convite para meditar sobre a riqueza e vastidão da vida interior.
Quais as suas influências artísticas e literárias? Quais artistas / movimentos artísticos / escritores você mais se identifica?
Estou sempre dando uma olhada nos livros de artistas como Josef Albers, Hilma af Klint, Chico da Silva e Georgia O’Keeffe. Um artista que conheço pessoalmente e que muito me inspira é Flávio Tavares, tem um livro entitulado “A linha dos sonhos”, com um compilado de seus desenhos, que gosto muitíssimo de folhear.
Os livros de Clarice Lispector, em especial “Paixão segundo G.H.”, despertaram minha atenção para as narrativas introspectivas e de fluxo de consciência, me fazendo observar os movimentos do monólogo interno para além dos meus próprios. Fortalecendo, assim, o entendimento de que essa conversa íntima é uma experiência amplamente compartilhada, além de reiterar tal assunto como território fértil, de interesse, mistério e encantamento pra mim.
Como as redes sociais impactaram a sua carreira?
Minha produção acontece no ateliê, dentro de casa, de forma que as redes sociais são um ótimo instrumento de comunicação, de troca com as pessoas que se interessam por meu trabalho. A vida do artista acaba sendo um pouco mais isolada e a internet possibilita abrir o ateliê para o mundo.
As vendas das minhas obras são praticamente todas feitas a partir de contato via Instagram.
A cultura popular nordestina influencia o seu trabalho de alguma forma?
Sim! Creio que seja impossível dividir a arte da vida do artista, as nossas vivências, os espaços que nos cercam, tudo isso gera eco. Identifico a influência da arte naïf, da xilogravura do cordel, da profusão de cores das festas juninas…
Quais os seus próximos projetos?
Vai acontecer minha primeira exposição individual em setembro, do dia 4 ao 30, no Centro Cultural São Francisco, aqui em João Pessoa.
Depois, darei continuidade nas minhas obras em busca de mais editais para uma nova exposição!
Pretendo também desenvolver em paralelo uma série de pinturas em porcelana, mais especificamente em xícaras e canecas. Penso que a hora do café/chá se relaciona muito bem com o momento de introspecção e relaxamento, quando deixamos a mente correr solta. Daí a vontade de criar a conexão da minha arte com esses objetos do cotidiano.
















